Gargalos travam competitividade brasileira

Publicado em
20 de Maio de 2010
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Gargalos institucionais (como leis defasadas e sobrecarga tributária) e de infraestrutura (logística e tecnologia) ainda travam a competitividade do Brasil no cenário internacional.

A oitava economia do mundo ocupa apenas o 38º lugar num ranking com 58 países feito pela faculdade suíça Instituto Internacional para o Desenvolvimento da Administração, em parceria no Brasil com a Fundação Dom Cabral (FDC).

O estudo, que mede o ambiente de negócios, considera dados oficiais e entrevistas com empresários.

A posição brasileira, contudo, já foi pior. Pelo terceiro ano consecutivo, o Brasil subiu no ranking. As duas posições avançadas em 2010 foram conquistadas graças à melhora na gestão das empresas e à resiliência do mercado de trabalho durante a crise.

Quesitos como flexibilidade ante novos desafios e adaptabilidade a mudanças puxaram o Brasil para uma posição menos desconfortável. O desempenho econômico, especialmente no que diz respeito à atividade doméstica, seguiu como outro ponto de relativo conforto.

As principais fraquezas, contudo, continuam na falta de eficiência do governo em todas as esferas -nesse segmento, o Brasil está entre os lanternas, em 52º- e na infraestrutura deficitária, segmento que inclui logística, tecnologia, ciência, educação, saúde e ambiente.

Leis defasadas, carga tributária alta, ausência de marcos regulatórios, burocracia excessiva para abrir empresas e firmar contratos de exportação são algumas das travas, que "seguram" a competitividade.

"Na variável sobre a facilidade de fazer negócios nos países, numa escala de 1 a 7, o Brasil está em 2,3. As empresas têm a percepção de que o Brasil é um país importante para estar, mas que requer mais cuidado e custo. No tempo para abertura de empresas, estamos entre os piores", diz Carlos Arruda, professor da Dom Cabral responsável pelos dados brasileiros.

"Esse é o pilar mais crítico, que impacta os demais, principalmente o de infraestrutura, que depende de ações do governo." Durante a entrevista, por Skype, de Arruda à Folha, a conexão foi cortada três vezes. O quesito infraestrutura tecnológica (que mede a qualidade de serviços como a banda larga ofertada no país) o Brasil ficou na 53ª posição.

Em infraestrutura como um todo, o Brasil caiu de 46º para 49º, afetado principalmente pela precariedade dos portos e das hidrovias e pelo preço dos serviços de telefonia celular.

Para Juan Quirós, vice-presidente da Fiesp e ex-presidente da Apex Brasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos), o estudo leva a concluir que as áreas mais sensíveis para a competitividade no Brasil são saúde e educação (40ª e 53ª posições, respectivamente) e que é preciso "modernizar" a legislação. Exemplo desses problemas, diz, são as barreiras para investimento externo em saúde.

"Subir [no ranking] é positivo, mas temos de focar o que pode nos levar para a 30ª posição. Estamos cansados de diagnósticos. Agora, temos de agir."

Mundo afora - Pela primeira vez em décadas, os EUA saíram da primeira posição do ranking, ultrapassados pelos pequenos Cingapura e Hong Kong, que conseguiram se organizar de forma mais competitiva. Os países europeus, fortemente afetados pela crise econômica global, foram os que mais perderam posições, abrindo espaço para economias com classe média ascendente, como Taiwan (foi do 23º lugar para o 8º) e Malásia (do 18º ao 10º).

Estrangeiro reclama de burocracia - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou seu último dia na Espanha, um país ainda mergulhado na crise econômica, para pedir mais investimentos no Brasil.

Levou uma comitiva formada por Guido Mantega (Fazenda), Paulo Bernardo (Planejamento) e pelos presidentes do BNDES, Luciano Coutinho, e do Bradesco, Luiz Trabuco, que soltaram uma enxurrada de cifras para mostrar a solidez e a "previsibilidade" do país.

"Venho aqui pedir que os senhores acreditem no Brasil e invistam no Brasil", disse Lula ontem a cerca de 150 empresários espanhóis, durante seminário sobre o futuro do Brasil.

Na plateia, investidores -como os presidentes das multinacionais Telefónica e Iberdrola, representantes de empresas ligadas ao petróleo e ao esporte e banqueiros- se mostraram especialmente animados com cifras de aumento do consumo, diminuição do deficit público e previsões de crescimento na casa dos 6% neste ano.

Mas alguns deles, ouvidos pela Folha, disseram-se cautelosos com os efeitos da crise na Espanha e entraves de investimentos no Brasil.

"Ainda há muita burocracia no Brasil e a política fiscal é muito complexa. Também estamos vendo uma competição excessiva lá", avaliou o diretor da Câmara de Comércio espanhola Gonzalo Solada.

Mesmo assim, ele afirma que o Brasil é apontado como um dos principais mercados para investidores espanhóis.

O crescimento do consumo, que, segundo expôs Mantega, ficou na casa dos 9% em abril -"quase uma demanda chinesa"-, é um dos principais atrativos para os espanhóis. Isso porque, segundo apontaram ontem, seu expertise atual está em produtos voltados à chamada classe C brasileira, como artigos de telefonia, turismo e roupas.

"Temos muito mercado para descobrir no Brasil", disse Dominique Riberolles, da Cia. Espanhola de Petroleiros, que há dez anos investe no país. Ele disse que a crise tem estimulado os investimentos em emergentes como o Brasil.

Confiança - "É uma forma de fugir do nosso mercado interno", disse Riberolles, que elogiou o discurso do presidente Lula. "Deu-nos mais confiança."

Confiança foi a palavra-chave da imagem vendida ontem pela comitiva brasileira. Lula falou no país como a 5ª economia mundial em 2020. Mantega deu previsão de fechar 2010 com o deficit público em 1,5% do PIB, "o menor do G20".

Isso para uma plateia que ainda está absorvendo o anúncio, na semana passada, de cortes sociais do governo espanhol para diminuir o deficit de 11% da Espanha -muito acima da meta de 3% da União Europeia.

Questionado por um empresário se não se trata de um "voo de galinha" do Brasil, Paulo Bernardo disse que há preocupação em equilibrar o crescimento. "Achamos muito mais razoável que a economia cresça mais de 6% neste ano e tenha condições de crescer 4,5%, 5% em 2011. O que não queremos é voar além do planejado."

País recupera atraso agora, diz governo - O ministro dos Transportes, Paulo Sérgio Passos, diz que a infraestrutura do país ainda não é o que deveria ser, mas que o governo trabalha para recuperar mais de duas décadas perdidas.

"Estamos distantes do que precisamos. Mas o país ficou 20 anos sem investir ou fazendo investimentos acanhados. Nesse período, conviveu com crises. Houve necessidade de impor restrições do ponto de vista fiscal, o que se traduziu em sacrifícios."

Segundo ele, essa situação levou a um represamento nos investimentos, criando gargalos de infraestrutura. Na avaliação do ministro, no entanto, o país já está em processo de mudar essa situação.

"O país voltou a ter capacidade de investir. Estamos duplicando rodovias, fazendo ferrovias." O Ministério de Minas e Energia informou que o setor tem planejamento para os próximos dez anos e que as obras estão andando conforme o cronograma.

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